Crise climática é mais grave que a econômica, adverte Marina
O mundo vive uma confrontação dos sistemas climáticos causada pela exaustão dos recursos naturais, alertou a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, durante palestra na tarde desta quinta-feira (26/11) na Expo Brasil Desenvolvimento Local 2009, no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Para ela, a crise ambiental é ainda mais grave do que a econômica.“Vivemos uma espécie de Armagedon dos sistemas climáticos. Um terço da população mundial já sofre com a desertificação. No Brasil, a desertificação atinge 1 milhão de quilômetros quadrados e 15 milhões de pessoas, Hoje, a humanidade perde mil vezes mais biodiversidade do que há 50 anos atrás. Por isso, a crise ambiental é mais grave do que a econômica”, disse para uma platéia com mais de 500 pessoas.
Prevendo catástrofes, Marina comparou a crise climática ao fim do mundo em razão dos grandes desafios que o aumento da temperatura global poderá trazer à humanidade. "Se chegarmos a uma elevação de dois graus de temperatura, segundo os especialistas, nós chegaríamos a um processo de declínio das condições que favorecem a vida na Terra. Ou seja, nós estaríamos inviabilizando a vida no planeta. É por isso que eu disse que essa crise é uma espécie de Armagedon para a humanidade".
Segundo ela, a sociedade precisa perceber que a crise ambiental afetará gravemente a economia do planeta. “Se considerarmos que 50% do PIB dos países dependem da sua biodiversidade, nós estamos comprometendo as bases do desenvolvimento. Corremos o risco de perder boa parte da base natural de desenvolvimento, cerca de 20% do PIB do planeta, já que três quartos da diversidade genética foram perdidos no último século”.
Ela citou como exemplo o bioma da Amazônia brasileira, que em 2005 sofreu a maior seca dos últimos 102 anos e, em 2007, a maior cheia dos últimos 50 anos. “Se pensarmos que boa parte da nossa energia depende da hidroeletricidade, temos aí muita coisa a ser feita”.
Para a senadora e também pré-candidata à Presidência da República, os países só terão um processo de desenvolvimento realmente sustentável quando promoverem oportunidades iguais para as pessoas. "A dimensão da sustentabilidade social diz respeito ao provimento dos meios para que as pessoas desenvolvam suas potencialidades",disse.
Marina Silva acredita que a reversão dessa situação passa necessariamente por um modelo de desenvolvimento sustentável econômico, social, cultural, estético, político e ético. “Econômico porque precisamos produzir condições dignas de sobrevivência, com saúde, educação, moradia, inovação e tecnologia. Sem isso, teremos o crescimento pelo crescimento”.
No campo social, a senadora defendeu oportunidades iguais e citou a sua trajetória de vida, que começou em um seringal no Acre. Do ponto de vista ambiental, afirmou, o desenvolvimento não deve comprometer as gerações futuras. Sobre o desenvolvimento cultural, a ex-ministra acredita que “precisamos pensar também em como desenvolver o País economicamente de forma a manter as raízes. “No Brasil temos 220 povos com 180 línguas que têm muito a trocar com todos nós”.
Para falar sobre o desenvolvimento sustentável do ponto de vista estético, Marina citou como exemplo o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. “Para muitos seria apenas um morro; para o Brasil significa muito e para o Rio de Janeiro mais ainda; se resolverem transformá-lo numa pedreira vai dar uma confusão danada”.
A política, segundo ela, permite que as pessoas dêem sustentação às mudanças que querem ver sendo realizadas. “Por que o projeto de resíduos sólidos está parado há 20 anos no Congresso?”, perguntou. Para ela, a sociedade é responsável e precisa fazer pressão sobre os governantes.
Marina Silva acredita que o falta à sociedade é o compromisso ético com a sustentabilidade, pois a técnica o mundo já adquiriu há muito tempo. “Por que temos 2 bilhões de pessoas sem moradia no mundo e conseguimos ir à Lua? Temos todas as condições de fazer esses 2 bilhões de moradias a um custo muito mais barato. Falta-nos ética”.
A ex-ministra criticou quem procura por salvadores da pátria, que oferecem o prazer imediato. Para ela, isso gera uma situação fragilizada e menos resistente. “As pessoas querem o prazer imediato, não querem se desapontar e muito menos querem o peso da responsabilidade”.
Por Beth Matias, da Agência Sebrae de Notícias
Foto: Kenia Ribeiro
